Quarta-feira, Dezembro 14

Artigo Científico para a cadeira de Produção Científica


Jornalismo Literário e Biografia:
Um estudo da produção biográfica de Fernando Morais em “O Mago”

Maria Julia MEDEIROS[1]
Universidade da Região da Campanha, Bagé, RS

RESUMO
Este trabalho se propõe a apontar traços do conceito de Jornalismo Literário em biografias escritas por jornalistas, especificamente neste caso na obra O Mago de Fernando Morais. A intenção é identificar elementos da construção biográfica que sejam comuns ao jornalismo. A pesquisa foi feita baseada na leitura da biografia e em suportes bibliográficos voltados para o assunto.

PALAVRAS-CHAVE: jornalismo literário, biografia, literatura

Introdução
Atualmente grande parte da produção biográfica disponível no mercado literário é de origem jornalística. O reflexo disto é a aparente mudança na forma de se produzir e de se contar as histórias individuais, inicialmente difundidas por historiadores, que quase sempre tinham suas bases nas lições acadêmicas e normativas.
Os livros biográficos têm um apelo muito forte e um público fiel. Os espaços nas livrarias já superam os de outros gêneros e alguns trabalhos foram capazes de fazer famosos alguns quantos pequenos escritores. Mais que grandes reportagens, as biografias contam a história do mundo. E, a precisão de investigação e qualidade dos textos típicas de um jornalista, demonstra, que fenômenos como o jornalismo literário vieram para ficar.
A proposta deste estudo é investigar em que pontos da produção biográfica a linguagem jornalística prevalece e investigar se no final, o texto sofre alterações significativas. A obra analisada foi escrita pelo jornalista Fernando Morais, autor que ajudou a fundar a biografia como gênero literário no Brasil, e que voltou sua verve investigativa para o personagem brasileiro que se converteu no grande mito de nossa história recente.
Para isso, utilizaremos além do livro O Mago, a teoria sobre jornalismo literário do livro Jornalismo Literário (Felipe Pena, 2006) como base biográfica. Para nortear a discussão para a qual voltei minha pesquisa utilizarei a monografia[2] Biografia e Jornalismo Literário: Uma análise da Produção biográfica de Ruy Castro em O Anjo Pornográfico, baseada na análise da obra O Anjo Pornográfico de Ruy Castro, e a monografia[3] A biografia no âmbito do jornalismo literário: Análise comparativa das biografias Olga, de Fernando Morais e Anayde Beiriz, paixão e morte na Revolução de 30, de José Joffly. Onde ambas utilizaram Sérgio Vilas Boas (2002) e Alceu Amoroso Lima (1990). Ainda foram utilizadas referências nos trabalhos de Geraldo Mayrink (1994) e Rinaldo Gama (1994).
 Assim, este estudo apresenta como tema a biografia O Mago, escrita pelo jornalista Fernando Morais, que narra à história de Paulo Coelho, um escritor universal que alcançou a astronômica marca de 100 milhões de livros vendidos e a façanha de ser o autor vivo mais traduzido em todo o planeta.
As biografias têm alcançado um grande sucesso editorial no Brasil, nos últimos anos, igualando-se inclusive aos manuais de auto-ajuda e livros exotéricos. Com isto diversos autores lançaram-se neste meio, investigando a vida de famosos e recuperando algumas outras tantas perdidas no tempo. Em 1994, o Catálogo Brasileiro de Publicações indicou um crescimento do gênero biográfico de 55% em relação a 1987 (apud Mayrink e Gama, 1994, p.104). O grande sucesso editorial pode ser explicado nas palavras do romancista João Ubaldo Ribeiro, quando afirma que “nas biografias existe o consolo do defeito (...). O leitor se sente confortado ao descobrir que grandes personalidades também cometeram deslizes e tiveram problemas.” (apud Mayrink e Gama, 1994, p.104).
Nas reportagens publicadas em forma de livro, como nas biografias, a literatura é facilmente observada. Já nas atuais biografias escritas por jornalistas os traços parecem ter muita influência do jornalismo literário e do tão comentado New Journalism[4], movimento nascido nos Estados Unidos na década de 60. Este trabalho traz reflexões sobre a produção biográfica de O Mago e tenta identificar características destes movimentos que comprovem a influência do jornalismo literário em biografias escritas por jornalistas.
Também conhecida como Literatura da Realidade ou Leitura de Não-Ficção a biografia é um dos mais sofisticados meios de informação dentro do gênero de jornalismo literário. Já fixas nas listas dos leitores no mundo todo, as obras biográficas promovem permanentemente uma ligação entre história, literatura, psicologia e jornalismo.
Os jornalistas-biógrafos oferecem qualificações típicas de um bom repórter em grandes reportagens: a investigação, habilidade de pesquisa, agilidade de seleção da informação e de fontes, compromisso com os fatos e principalmente capacidade de se expressar claramente.
Assim, para tecer considerações acerca da biografia escrita pelo jornalista Fernando Morais, esse trabalho foi dividido em três partes. A primeira trata dos conceitos relacionados ao gênero biográfico, o segundo sobre o trabalho dos jornalistas-biógrafos, e a última caracterizando a biografia como possível subgênero do Jornalismo Literário, baseado em pesquisa da obra O Mago de Fernando Morais.

1. O gênero biográfico
Etimologicamente o termo composto por bio (indicativo da idéia de “vida”, com origem no grego bíos) + grafia (de grafo, elemento de composição culta, com origem no grego grápho que significa escrever), é um ramo da literatura que se dedica à descrição ou narração da vida de alguém que se notabilizou de alguma forma. Uma biografia costuma reportar-se a toda a extensão da vida do escolhido, pretendendo não somente recontar os eventos que a compõem, mas também recriar a imagem deste como é, era ou foi. Conforme assinala Carino (apud Daniel Madélenat 1984, p.32), “a história da biografia é então a história de seus recomeços sucessivos, de suas adaptações às novas imagens do homem”.
Como define Jonaedson Carino (1999, p.156) está claro então que na antiguidade a vocação do gênero biográfico se mostrava bem nítida: seria então um instrumento de uma antropologia filosófica. “Por intermédio das biografias – retratos, mais ou menos, fiéis de homens na concretude de suas vidas – será possível, talvez responder à crucial pergunta que define esse campo especializado de investigação filosófica: - Que é o homem?” (CARINO, 1999, p. 156).
A obra inclui necessariamente o nome do biografado, a data do seu nascimento, a sua naturalidade, filiação, habilitações literárias, profissões desempenhadas, etc. O biógrafo necessita de um profundo trabalho de pesquisa e de todo tipo de material que tenha a seu dispor. As obras realizadas pelo próprio biografado, fotografias, pinturas, recordações de testemunhas vivas ou outro livros sobre o biografado também são importantes. Esteticamente a biografia deve assumir a responsabilidade com a verdade que não anule nunca a imaginação que irá ser oferecida ao leitor. Para Felipe Pena (apud BOURDIEU, 1986) “o biógrafo é cúmplice dessa ilusão. Ele tenta satisfazer o leitor tradicional, que espera dele uma suposta verdade, uma suposta realidade.”
Lindjane Pereira cita Vilas Boas (2004, p. 18), e assim define o gênero: “Em rigor é a compilação de uma (ou várias) vida (s). Pode ser impressa em papel, mas outros meios, como cinema, a televisão e o teatro podem acolhê-la bastante bem.”.
A biografia tem em si uma importância que não precisa ser explicada. “Sua impressionante resistência ao longo dos séculos, como gênero literário e como fonte historiográfica, é prova disso. Sua adaptabilidade aos momentos históricos demonstra sua utilidade como instrumento de compreensão do mundo humano e dos seres que os integram – os indivíduos.” (CARINO, 1999, p. 178)
No ato de ler, desvendamos fatos e acontecimentos que, em sequência, formam o fio condutor de uma história. Aquilo tudo que está registrado dentro de um livro é pura história, os fatos são aqueles, e a verdade deverá ser aquela. Podemos dizer que todos somos os protagonistas de nossa história, e nossa vida é um livro em constante atualização. Então ao lermos uma biografia, temos personagens, histórias, cenários e conflitos, mas não temos ficção. É tudo parte da mais pura realidade, pelo menos se espera que seja. Personagens tão reais que muitas vezes nos identificamos e admiramos cada vez mais ganham registros de suas aventuras da vida, sendo autobiográficas ou não, segundo Pena (2006, p.80):

Para começar, posso afirmar sem medo de errar, que, no palco contemporâneo, o espetáculo em cartaz é a vida. Os ingressos na bilheteria dão direito a entrar na intimidade dos atores, formar alteridades e idealizar heróis, porém a platéia não está satisfeita e quer ela mesma encenar o espetáculo. E na esquizofrenia de ser ao mesmo tempo personagem e espectadora (Big Brother Brasil, por exemplo), ela tenta ler o letreiro néon que anuncia o título da obra: realidade. Mas esse título é apenas um pequeno elemento da realidade construída por essa mesma platéia. Não é mais nem menos autêntico. É apenas um espaço de participação. (PENA, 2006)

Se olharmos para o seu conteúdo, veremos que antes de tudo, é preciso que se diga que a biografia é um gênero de referência literária, ou seja, ela conta a história de pessoas que realmente existiram. E em cada passagem de tempo, novos formatos de biografia surgem e atualmente as obras não vivem só de prosa. É cada vez mais comum encontrar quadrinhos, ilustrações, artifícios como música e internet para completar uma obra biográfica. E estas tendências, demonstram como a habilidade do jornalista poderá fazer diferença na realização de tais livros.

2. O trabalho do jornalista-biógrafo
Os jornalistas-biógrafos tomam emprestadas da ficção técnicas narrativas, da história as metodologias de escavação do passado, da sociologia as ferramentas para as pesquisas qualitativas, a antropologia costuma fornecer auto-reflexões decorrentes de um diálogo e de uma negociação de pontos de vista entre o biógrafo e suas fontes. Podemos suspeitar que a autoconsciência do autor sobre o processo biográfico influencia o resultado da obra. Até porque, a grande maioria dos biógrafos, jornalistas ou não, é autodidata. Então não há um método padrão, mas “biografar” tornou-se uma especialidade.
Quando falamos de criatividade, poderia citar alguns autores mais corajosos, que sentem-se atraídos por ela e chegam a pensar que praticam literatura da realidade (PENA, 2006, p.14) pelo fato de sua prosa ser incomum ou ao menos distinta de outras, ou de que as histórias que contam são verdadeiras. Outros talvez assumam que a criatividade sugere “imprecisão, inverossimilhança, antiética, ficcionalização dos fatos”. Sobre a veracidade Felipe Pena (2006, p. 91) comenta “não há nenhum cruzamento de dados para uma suposta verificação de veracidade, pois isto inviabilizará o próprio compromisso epistemológico da metodologia.”
Durante a história das biografias, diversos profissionais se arriscaram a escrever o gênero, que em sua maioria são trabalhos desenvolvidos em âmbito acadêmico. Porém, paralelo a este trabalho, os jornalistas tem sido os grandes responsáveis pelo aparecimento de uma quantidade importante de textos bibliográficos (KLÜCK, 2010, p. 30).
Os novos moldes de se escrever parecem levar em consideração a teoria sobre jornalismo literário e as sete pontas da estrela propostos por PENA (2006). Costumam potencializar os recursos jornalísticos; ultrapassar os limites dos acontecimentos do cotidiano; proporcionar uma visão ampla da realidade; exercitar a cidadania; romper com as correntes do lead; criar alternativas; ouvir o cidadão comum, a fonte anônima, os pontos de vista que nunca foram abordados e por fim o jornalismo literário não pode ser efêmero de superfície (PENA, 2006, p. 13 a 15).
Essa nova forma de se escrever uma biografia quer suprir a necessidade da sociedade contemporânea, que há tempos perdeu referenciais ideológicos. Mas é importante, que se diferencie o gênero de narrativas afins, como histórias de vida e perfis. De acordo com Klück (2010) “a confusão aparece porque as três narrativas apresentam aspectos biográficos, mas nem tudo que é biográfico é necessariamente biografia.” Como não existe uma fórmula para a produção da biografia, ela acaba por ser “uma composição superdetalhada de vários ‘textos’ biográficos (facetas, episódios, convivas, pertences, legados, o feito, o não-feito, etc.) Klück (apud VILAS BOAS, 2008).
O livro O Mago de Fernando Morais é um grande exemplo disto, já que Paulo Coelho passou a vida inteira escrevendo diários e recebendo críticas em jornais, só daí já seria suficiente um texto biográfico. O capítulo 2 é o início real da biografia, onde Morais utiliza os poucos “mandamentos” existentes na produção do gênero:

Paulo Coelho de Souza nasceu em uma chuvosa madrugada de 24 de agosto de 1947, dia de São Bartolomeu, na Casa de Saúde São José, no Humaitá, bairro de classe média do Rio de Janeiro, Brasil. Nasceu morto. Os médicos previam dificuldades naquele parto, o primeiro da jovem dona de casa Lygia Araripe Coelho de Souza, de 23 anos, casada com o engenheiro Pedro Queima Coelho de Souza, de 33 anos. O bebê seria não apenas o primogênito do casal, mas também o primeiro neto dos quatro avós e o primeiro sobrinho de tias e tios de ambos os lados. Os exames iniciais apontavam um risco considerável: a criança parecia ter ingerido uma mistura fatal de mecônio – ou seja, suas próprias fezes – com líquido amniótico. (MORAIS, 2008, p. 63)

Algumas vezes, jornalistas-biógrafos utilizam inclusive dos mesmos recursos narrativos: o flashback, por exemplo. Em entrevista ao Portal Terra, Morais afirmou que “não se sente atraído pela estrutura cronológica rígida, do tipo nasceu assim, viveu assim, morreu assado. O recurso do flashback, por exemplo, pode dar mais vida ao texto.” (MORAIS, 2009)
Nas biografias escritas por jornalistas, o conteúdo ficcional parece ser maior do que em biografias realizadas no campo da história. Foi com o jornalismo literário e o new journalism que estas características nasceram. Segundo Tom Wolfe (2005), o objetivo da mesma seria:

(...) descrever a realidade tão detalhada e fielmente quanto possível, conferindo a tal descrição um tratamento até então destinado exclusivamente ao romance ou ao conto. Isso, e mais: descobriu-se que um artigo jornalístico podia – devia, na verdade – recorrer a todos os artifícios literários (diálogos, monólogos, interiores, teorizações ensaísticas), simultaneamente e dentro de um espaço breve, capturando o leitor, emocional e intelectualmente. (WOLFE, 2005)

No caso das reportagens, como as empresas jornalísticas barram o emprego de recursos literários (buscando objetividade e imparcialidade na divulgação de notícias), nos livros a influência da literatura foi muito mais marcante.
Morais (2008, p. 145), por exemplo, adora rechear seus livros de diálogos, em O Mago não foi diferente:

- Dona Ondina, eu sou a pessoa que escreveu a reportagem sobre a Congregação Mariana e vim esclarecer...
Interrompido no meio da fala, nem pôde terminar a frase:
- Você está despedido.
Surpreso, ainda tentou argumentar:
- Mas dona Ondina, eu estou para ser efetivado no jornal...
Sem tirar os olhos do papel ela repetiu:
- Você está despedido. Pode se retirar, por favor.
Paulo saiu de lá lamentando sua ingenuidade. (MORAIS, 2008, p. 145)

Este pode ser considerado um recurso estilístico, já que embora esteja baseado em algumas informações, não aparece em nenhum registro da forma como foi apresentado. É um exemplo de texto ficcional. “Não acredito que seja possível escrever biografias como relatos cronológicos de acontecimentos com significado e direção.” (PENA, 2006, p. 71)
O estilo narrativo dos jornalistas-biógrafos apresentam variações que conferem à biografia um caráter por vezes puramente literário. Em virtude do texto, da temática diversa e de um conjunto de fatos que são levantados durante o tempo cronológico, os elementos humor e drama coexistem nas histórias contadas.
Em geral, tanto quando escritas por historiadores ou jornalistas, a preocupação geral dos biógrafos parece querer desvendar os múltiplos caminhos que ligam um indivíduo ao seu contexto. Obviamente, a história e os fatos não irão mudar. Mas na maior parte das vezes, os autores tendem a enfatizar um dos dois lados da relação: o homem, ou os fatos, o sujeito ou a estrutura. Hoje, porém, a grande maioria dos jornalistas-biógrafos, procura pensar a articulação entre as trajetórias individuais examinadas e os contextos nos quais estas se realizam como uma via de mão dupla, sem ir demais para o campo do individualismo e nem exclusivamente na determinação estrutural. Pena cita (apud BOURDIEU, 1986):

O relato biográfico, na maioria das vezes, tenta ordenar os acontecimentos de uma vida de forma cronológica, na ilusão de que eles formem uma narrativa autônoma e estável, ou seja, uma história com princípio, meio e fim, formando um conjunto coerente. É o que o professor francês Pierre Bourdieu chama de ilusão biográfica, aquela que trata a história de uma vida como “o relato coerente de uma sequência de acontecimentos com significado e direção”. (BOURDIEU, 1986)

Chama a atenção também as escolhas dos personagens biografados: deixam de ter foco apenas homens que merecem esta dignidade, mas também pessoas comuns, os subalternos. E preocupado com os rumos destas escolhas Pena (2006) comenta “trata da idolatria aos personagens relatados, o que é muito perigoso, principalmente quando transforma celebridades midiáticas em heróis, criando padrões de comportamento e exemplos de conduta”. (PENA, 2006, p. 72)
Um exemplo disto é a autobiografia escrita por Raquel Pacheco, mais conhecida pelo pseudônimo de Bruna Surfistinha. Ela, uma ex-prostituta brasileira e ex-atriz de filmes pornô se tornou uma mega celebridade na internet ao ter seu blog lido por milhões de pessoas. O livro autobiográfico O Doce Veneno do Escorpião – O diário de uma garota de programa, baseado no blog, foi um grande sucesso e atingiu rapidamente a lista dos mais vendidos, com concorridas noites de autógrafos e lançamentos em Portugal e na Espanha, além de ter tido várias tiragens. As vendas chegaram a soma de 250 mil exemplares. O livro lhe rendeu mais uma publicação autobiográfica em O que aprendi com Bruna Surfistinha – Lições de uma vida nada fácil[5] em 2006, e no ano seguinte o lançamento do terceiro livro da série escrita por Raquel Pacheco, intitulado Na cama com Bruna Surfistinha. Em 2011 a trajetória “biográfica” da personagem Bruna Surfistinha chega ao topo, é lançado um filme[6] que conta a história da prostituta.
Pena (2006) comenta “Jornalistas, escritores, produtores, dramaturgos, cineastas, diretores e todos os outros responsáveis pelo discurso midiático estão em xeque. Se a vida é um show e a mídia é um palco, os roteiristas do espetáculo correm o risco de tornarem-se os bobos da corte”.
Em suma, acredito que as biografias produzidas por jornalistas têm muito a acrescentar, pois somam duas grandes escolas, a literária acadêmica e a da comunicação, com sua busca interminável pelo novo.
3. A biografia como possível subgênero do Jornalismo Literário
Para elucidar os traços do Jornalismo Literário nas obras biográficas foi utilizado o livro O Mago, de Fernando Morais (2008), que conta a trajetória do maior escritor - em números de vendagem - da história do Brasil, mesmo sendo o mais criticado deles.
A história de Paulo Coelho é uma grande reportagem com uma forte narrativa, na qual de cara já se encontram traços fortes das linguagens jornalísticas e literária. Para a construção da obra, Morais utilizou muitos recursos do New Journalism, onde o foco narrativo era alterado por diversos momentos mesmo sem perder o ritmo cronológico. De acordo com Pereira (apud COIMBRA, 1993, p. 44) a reportagem narrativa tem como característica fundamental “conter os fatos organizados dentro de uma relação de posterioridade e posterioridade, mostrando mudanças progressivas de estado nas pessoas ou nas coisas”.
O texto narrativo é facilmente identificado por suas características, e três elementos podem ajudar nisto: “a situação, a intensidade e o ambiente” (Pereira apud LIMA, 1995). E de acordo com algumas das “normas” do Jornalismo Literário, a fuga do lead aparece, já que ao invés de responder as questões que, quem, onde, como e porque logo no primeiro parágrafo, as respostas vêm ao longo do texto. No trabalho de Morais, em O Mago, a busca durante a cronologia é a realização do sonho do biografado em se tornar escritor, que aparece em diversos momentos da trama:

São aparentemente dessa época, quando tinha entre treze e catorze anos, os primeiros sintomas de uma irreprimível idéia fixa, uma verdadeira obsessão que não o abandonaria jamais: ser escritor. Quase meio século depois, consagrado como um dos autores mais lidos em todos os tempos, ele revelaria, em um parágrafo de seu livro O Zahir, as razões que o levaram àquele sonho:
Escrevo porque quando era adolescente não sabia jogar bem futebol, não tinha carro, não tinha uma boa mesada, não tinha músculos. Tampouco usava roupas da moda. As meninas da minha turma só se interessavam por isso, e não conseguia que prestassem atenção em mim. À noite, quando meus amigos estavam com suas namoradas, eu passei a usar meu tempo livre para criar um mundo onde pudesse ser feliz: meus companheiros eram os escritores e seus livros.

Outro elemento fortemente literário que aparece no texto analisado é a importância emocional que o escritor dá aos fatos. Fernando Morais aplica ao seu trabalho, uma dramaticidade típica das mais importantes obras da literatura. Por exemplo, na descrição do momento em que ele retorna ao manicômio pela segunda vez:

Tomado de fúria, encheu as mãos de pedras e passou a quebrar, uma por uma, todas as vidraças de portas e janelas na fachada da casa. Acordados pela barulheira, os pais pretendiam medir forças com ele, mas temendo que a vizinhança chamasse a polícia, Pedro Coelho desceu e abriu a porta para o filho. Deixando transparecer – ou, como se dizia na época, “dando bandeira” – que havia bebido além da conta, Paulo atravessou a sala cheia de cacos de vidro e subiu as escadas sem ouvir uma só palavra do pai.
Naquela noite dormiu logo, mas teve um pesadelo horrível. Sonhou que havia um médico sentado na beira da cama, medindo sua pressão, sob as vistas de dois enfermeiros que seguravam uma camisa de força na porta do quarto. Só então, atordoado, percebeu que não se tratava de um sonho. O pai chamara o pronto-socorro para interná-lo de novo. Desta vez, à força. (MORAIS, 2008, p. 161)

Pereira (2006) comenta: “apesar de muitas críticas, a maior parte dos biógrafos organiza seus textos seguindo a ordem cronológica da vida dos seus personagens”. Morais não é diferente, porém utiliza de recursos diversos para fechar a história. No caso da biografia de Paulo Coelho, Morais inicia a trajetória do ponto atual da vida do escritor, para no segundo capítulo começar a desvendar a história de vida do “mago”. E ali, começa-se a perceber um aproveitamento de versões e de hipóteses sobre determinados acontecimentos em sua trajetória.
Com a voz narrativa, essencial para dar a obra um caráter jornalístico literal, o autor acrescenta à biografia suas próprias versões para o que possa ter acontecido ao longo da vida do personagem. O que seria uma espécie de posicionamento diante dos fatos. “Conforme vimos na exposição do conceito de Jornalismo Literário, a subjetividade do repórter-escritor expressa o aprofundamento narrativo, em contraponto à idéia de neutralidade”. (KLÜCK, 2010)
No caso de O Mago, Fernando Morais parece não se prender a esta neutralidade, sua participação ativa na trama, revela-se crítico e se posiciona na história por diversas vezes, e é bem presente nesta passagem do livro:

Paulo encerrou o episódio certo de que tinha passado a perna no Diabo, mas sua esperteza não perdia por esperar. Enquanto o encontro dos dois não acontecia, insistia em invocar o espírito do Mal nas reportagens e artigos escritos para a Poma e em uma nova empreitada em que se metera, os roteiros de histórias em quadrinhos. (MORAIS, 2008, p. 294)

A descrição acima é parte do capítulo 14, intitulado “Como prova de boa-fé, Paulo promete ao Demônio não pronunciar nomes de santos nem rezar por seis meses”, que narra sua primeira tentativa em fazer um pacto com o Diabo. Em todas os fragmentos do texto, seja neste capítulo ou em outros, que falam de sua ligação satânica, o autor parece explicitar a dramaticidade:

“Ao abaixar-se para amarrar os tênis, teve a impressão de que o chão de tacos de madeira se inclinava para cima, aproximando-se perigosamente de seu rosto. Eram suas pernas que haviam bambeado inesperadamente, como se ele tivesse sido acometido de uma vertigem muito forte, inclinando o peito para a frente. Quando se estatelou no chão. Com a intensificação da vertigem, tentou lembrar se havia comido algo estranho, mas não, não havia sido nada assim: na verdade, não sentia náuseas nem vontade de vomitar, apenas era chacoalhado por uma voragem que aprecia tomar conta de tudo à sua volta. Junto com os surtos de tontura, que iam e vinham, percebeu que o apartamento estava tomado por uma bruma escura. Por um instante implorou que estivesse vivendo o momento mais temido pelos usuários de drogas – um bad trip, a viagem às vezes sem volta provocada pelo consumo de LSD.” (MORAIS, 2008, p. 319)

A voz narrativa nesta biografia aparece em características fortemente definidas pelo autor, um dos norteadores do jornalismo literário. A visão própria do autor, que parece querer revelar uma voz própria a respeito de todos os fatos.

Conclusão
Diferente de algumas outras obras de Morais, O Mago me parece ser a mais completa obra biográfica de sua história, principalmente devido ao fato de que Paulo Coelho escreveu diários, durante toda a sua vida e, sempre fez muitas anotações, além de ter sido sempre muito noticiado, suportes que deram à obra, um caráter fortemente revelador da vida de Coelho. A factualidade do trabalho de Fernando Morais foi tanta, que após a publicação do livro, Paulo Coelho chegou a ficar sem falar com o escritor por algum tempo, de tão chocado que ficara com tantas revelações. “Mandou um bilhete frio, cumprimentando pelo profissionalismo e pela honestidade do trabalho, e me pedindo de volta os arquivos dele, que ele vai mandar queimar”. (Morais, 2008).
A proposta deste trabalho foi mostrar os traços do Jornalismo Literário contidos na obra biográfica escrita pelo brilhante Fernando Morais, em O Mago, com pretensões de ser inclusive objeto de estudo no trabalho de monografia para conclusão do curso de Comunicação Social. Apesar disto, o trabalho é uma pequena análise que revela características da realização do livro de Morais, onde são marcantes os métodos de pesquisa utilizados – documental e entrevista – exatamente como se faz no jornalismo.
Além disso, em relação às discussões do jornalismo literário, podemos destacar o quanto complexa é a obra de Fernando Morais, e o quanto ela pode ser referência para exemplificar a forte influência do gênero às biografias, que acabam por tornar-se subgêneros deste. Assim como citou Pena (2006):

“A biografia é uma mistura de Jornalismo, Literatura e História, e aqui será tratada como um subgênero do título deste livro. A biografia, portanto, é a parte do Jornalismo Literário que trata da narrativa sobre um determinado personagem. Ele é o fio condutor de todo o enredo. Os acontecimentos, por mais importantes que sejam, são apenas satélites. Tudo gira em torno da história de uma vida.” (PENA, 2006, p. 70)

O que não dá pra esquecer, é que escrever uma biografia realmente não é para qualquer um. Ser um biógrafo, independente de ser historiador ou jornalista, requisita que se tenham cuidados extremos não só com a palavra escrita, mas com a pessoa sobre a qual se escreve. Sendo verdadeiro, sempre.

Referências Bibliográficas
CARINO, Jonaedson. A biografia e sua instrumentalidade educativa. São Paulo, 1999.
KLÜCK, Leonardo Drews. Biografia e Jornalismo Literário – Uma análise da produção biográfica de Ruy Castro em O Anjo Pornográfico. Monografia de conclusão, apresentada à Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2010.
MORAIS, Fernando. O Mago. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2008.
PENA, Felipe. Jornalismo Literário. São Paulo: Editora Contexto, 2006.
PEREIRA, Lindjane dos Santos. A biografia no âmbito do jornalismo literário – Análise comparativa das biografias Olga, de Fernando Morais e Anayde Beiriz, paixão e morte na Revolução de 30, de José Joffly. Monografia apresentada à Universidade Federal da Paraíba. João Pessoa, 2007.
WOLFE, Tom. Radical Chique e o Novo Jornalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Internet:
Terra Magazinewww.terramagazine.terra.com.br, 2008


[1]  Estudante do curso de Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo da Universidade da Região da Campanha. E-mail: mjmedeiross@gmail.com – 29 de novembro de 2011.
[2]  Monografia apresentada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Biografia e Jornalismo Literário – Uma análise da produção biográfica de Ruy Castro em O Anjo Pornográfico. KLÜCK, Leonardo Drews. Porto Alegre, 2010.
[3] Monografia apresentada na Universidade Federal da Paraíba. A biografia no âmbito do jornalismo literário – Análise comparativa das biografias Olga, de Fernando Morais e Anayde Beiriz, paixão e morte na Revolução de 30, de José Joffly. PEREIRA, Lindjane dos Santos. João Pessoa, 2007.
[4]  O New Journalism é um gênero jornalístico surgido na imprensa dos Estados Unidos, na década de 60, que tem como principais expoentes Tom Wolfe, Gay Talere, Norman Mailer e Truman Capote. Classificado como romance de não-ficção, sua principal característica é misturar a narrativa jornalística com a literária.
[5]  O livro entrou para a lista de Best-sellers brasileiros
[6]  O filme estrelado pela atriz Débora Secco foi indicado a 14 premiações e venceu 6 delas. Dirigido por Marcus Baldini o filme é uma adaptação do Best-seller literário O Doce Veneno do Escorpião: o diário de uma garota de programa.

Sexta-feira, Dezembro 2

Da Série: Filho


Hoje, meu filho Samuel, me disse que "velhos" eram chatos. Eu, encucada, perguntei porque ele estava dizendo isso.
Argumentei dizendo que a Bisa Méri Otero Silveira era "velha" e não era chata. Então ele concordou, mas disse que ela era mulher e que chatos eram os "homens velhos".
Me quebrou...

Então disse à ele que gostaria muito de lembrar do meu Avô Dolly, que faleceu quando eu tinha 2 ou 3 anos. Ou de ter conhecido meu Avô Zélio, que faleceu dois anos antes do meu nascimento.
Contei que os dois eram pessoas muito legais, e que seriam "bisavôs" muito queridos.

E contei que a minha Avó Rosa, que nos deixou há 13 anos atrás, também faz muita falta, porque era muito engraçada e amorosa.

Ele ouviu tudo pacientemente, pegou um brinquedo e me deixou no vácuo. Acho que não o convenci que "homens velhos" não eram chatos. :(

Sábado, Setembro 17

da Série: Trabalhos da Faculdade

Este semestre estou fazendo a cadeira de Produção Científica, e o primeiro trabalho foi uma resenha crítica sobre algum livro. Escolhi uma obra, escrita pelo escritor Fernando Morais, que na minha opinião como verão à seguir, deveria ser lido por todo graduando de Jornalismo. 

Histórias de uma vida no jornalismo
Maria Julia de Medeiros Silveira

Morais, Fernando. Cem Quilos de Ouro: [e outras histórias de um repórter]. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

   Considerado atualmente um dos maiores biógrafos do país Fernando Morais apresenta neste livro um pouco de sua própria história. O autor faz um apanhado das melhores reportagens feitas por ele na época em que era repórter dos melhores e mais conceituados jornais brasileiros entre as décadas de 1970 e 1990, dando em síntese uma aula do que é o jornalismo diário, seus obstáculos e suas glórias. O livro é uma compilação levada a termo pelo jovem jornalista Marcos Simieli, a pedido da editora Companhia das Letras, e seria inicialmente destinado à Coleção Jornalismo Literário, mas foi publicado como obra autônoma.
   Sem dúvida além das 12 reportagens, que já são por si só um estímulo ao trabalho de um repórter, os comentários feitos pelo autor em cada uma delas já são um grande atrativo para quem deseja seguir a profissão.
   Fernando Morais nasceu em Mariana-MG em 1946. Iniciou sua carreira jornalística aos 15 anos, quando era apenas um Office boy na pequena revista de um banco, quando na falta do único jornalista da publicação teve de substituí-lo em uma entrevista coletiva. Aos 18 anos, Fernando já demonstrava suas grandes habilidades para a carreira, e trabalhou em grandes publicações como Veja, Jornal da Tarde, Folha de São Paulo, TV Cultura e por tantas outras. Na década de 80 ingressou na vida política quando foi eleito Deputado Estadual e permaneceu no cargo por 8 anos (pelo MDB-SP e depois pelo PMDB-SP), e posteriormente assumindo as pastas da Secretaria de Cultura (1988-1991) e de Educação (1991-1993) do Estado de São Paulo nos governos Orestes Quércia e Luis Antônio Fleury Filho. Fruto de uma reportagem, seu primeiro grande sucesso literário foi o título A Ilha (lançado em 1976 e reeditado em 2001), relato de uma viagem a Cuba em período conturbado pós-revolução. A partir daí, a carreira de jornalista foi colocada de lado para deixar espaço para o grande escritor se dedicar à literatura. É autor das biografias de Olga Benário (Olga em 1985 e reeditado em 1994), Assis Chateaubriand (Chatô, o Rei do Brasil em 1994), Casimiro Montenegro Filho (Montenegro, as aventuras do Marechal que fez uma revoluação nos céus do Brasil (2006) e Paulo Coelho (O Mago em 2008), além de livros reportagem como Corações Sujos (2000) que reconstitui a sangrenta página da história da imigração japonesa para o Brasil, e Na Toca dos Leões (2005) onde o autor esmiúça a vida de publicitários da agência W/Brasil. Em 2003 junto ao lançamento do livro Cem Quilos de Ouro: e outras histórias de um repórter, Fernando tentou uma vaga na Academia Brasileira de Letras mas foi derrotado por Marco Maciel, ex-senador e ex-vice-presidente da República.
   O livro é dividido em 12 capítulos, cada qual traz uma das reportagens escolhidas para fazer parte da lista das melhores realizadas pelo escritor durante sua carreira jornalística, e em cada uma Fernando detalha como cada uma delas surgiu.
   O primeiro capítulo traz a reportagem que deu o título ao livro, Cem Quilos de Ouro, neste trabalho o autor narra a trajetória de um sequestro ocorrido na Bahia, no ano de 1988 em que os criminosos pediram de resgate a quantia de 100kg de ouro. O personagem central é o empresário Guilherme Affonso Ferreira, o Willy, presidente da Bahema, empresa distribuidora de máquinas Caterpillar para o Norte e Nordeste. A pauta surgiu em um jantar, onde o irmão da vítima relatou o fato e chamou a atenção de Fernando, já que na época o crime de sequestro ainda não era tão comum. A reportagem foi realizada em dezembro de 1988 e publicada na Revista Playboy em fevereiro de 1989. Com forte apelo emocional, Fernando utiliza os relatos de Willy e impressiona o leitor com o fato da vítima ter se aproximado tanto de seu carrasco, apelidado pelo empresário de Companheiro, um claro exemplo da Síndrome de Estocolmo (estado psicológico particular desenvolvido por algumas pessoas que são vítimas de sequestro, quando a vítima tenta se identificar com seu captor ou tenta conquistar a simpatia do mesmo). Fernando conversou com policiais, familiares e o próprio Willy para esclarecer os fatos, e nestas conversas pôde destrinchar detalhes como os momentos em que a vítima passou encarcerada numa cela de 2m x 1m e de que forma saiu dali vivo e sem pagar o resgate.
   A partir do segundo capítulo as reportagens seguem uma sequência cronológica, da data em que foram realizadas e publicadas. Em O sonho da Transamazônica acabou, Fernando Morais e o fotógrafo Alfredo Rizzutti foram destacados pelo Jornal da Tarde para percorrer a obra feita pelo governo militar. Chamada pelos militares da “obra do século”, a rodovia Transamazônica acabara de ser inaugurada pelo então Presidente da República, general Emílio Garrastazu Medici, e era ainda um grande mistério já que ninguém havia percorrido todo o trajeto da obra. Em 1970, Fernando, Alfredo Rizzutti e Ricardo Gontijo já haviam sido pioneiros na reportagem que mostrou ao Brasil como seriam as obras, na época os três ganharam um Prêmio Esso de equipe. Em 41 páginas, Fernando relata a trajetória dos 3312 quilômetros percorridos pela nova rodovia, e como o povo e as cidades cortadas pela construção da Transamazônica estavam tendo suas vidas e futuros alterados. A reportagem cansativa, que ocupou 20 páginas distribuídas em cinco edições do Jornal da Tarde, elucida os problemas que existiram na construção da rodovia e principalmente as dificuldades que os viajantes teriam durante o percurso, segundo Fernando o sonho da transamazônica acabou juntamente com sua inauguração.
   Como um repórter conseguiria viajar à Cuba, em pleno governo militar no Brasil? Essas e outras respostas são dadas por Fernando Morais na reportagem que seria o embrião do livro A Ilha. Intitulada de Primeiro Rascunho de A Ilha o terceiro capítulo, e terceira reportagem, relata as peripécias do jornalista ao tentar romper as barreiras políticas, diplomáticas e comerciais entre Brasil e a ilha do Caribe ocorrido após o golpe militar de 1964. Quando Morais recebeu do colega jornalista Rolf Kuntz, as informações obtidas de um alto funcionário do governo de Havana sob a possibilidade de um brasileiro fazer uma reportagem sobre a atual situação do país, e cedeu seu lugar por saber da vontade de Morais de realizar tal reportagem, o escritor não mediu esforços para concluir tal missão, após uma primeira tentativa frustrada em dezembro de 1974 após ser destacado para uma reportagem em Lisboa sobre os primeiros meses da Revolução dos Cravos, Fernando Morais recebeu a notícia de que o Presidente de Cuba estava disponível para recebê-lo. O texto só foi publicado em agosto de 1975 e detalha os problemas vividos pelo povo cubano 15 anos após o fim da revolução que levou à derrubada do ditador Fulgêncio Batista, liderada por Fidel Castro, Camilo Cienfuegos e Ernesto Che Guevara o grupo estabeleceu um novo regime pautado na melhoria das condições de vida dos menos favorecidos. O rompimento das ligações diplomáticas com os EUA e a proximidade com as nações socialistas impuseram ao povo uma nova maneira de viver, nessa época Fernando fala sobre as melhorias da educação e na saúde e todas os racionamentos de alimentação e outros gastos da população. Instigante à ponto de tornar-se um livro, Primeiro Rascunho de A Ilha é um capítulo cheio de descobertas.
   O quarto capítulo traz a reportagem O homem de Fidel na CIA. Brilhante relato de um dos homens de maior confiança de Fidel Castro durante a época da revolução, conseguido durante os quase três meses que Fernando Morais esperou para entrevistar o Presidente cubano, e que fora publicado em agosto de 1977 na Revista Playboy. A história narra a vida da família Santiago, Tony, Aleida, Tony Jr. e Ricardo, personagens da fatídica trajetória da revolução da ilha. Antônio Santiago García tornara-se espião cubano no grupo dos contra-revolucionários, e fora depois de anos de amor à pátria e luta secreta, morto confundido com um pescador e mercenário. A narrativa é feita através das conversas com Aleida, viúva de Tony e seus filhos.
   A reportagem do quinto capítulo, intitulada A guerrilha de Nicarágua, relata a situação do governo de Anastasio (Tachito) Somoza Debayle, diante da pressão da Frente Sandinista de Libertação Nacional. Fernando Morais, conheceu militantes da FSLN em um evento em que foi jurado em Cuba, e recebeu o convite (secreto) de conhecer os ideais do grupo. Na mesma viagem Morais entrevistou o Presidente Tachito e os guerrilheiros, e concluiu em um mês de trabalho, que o último membro da família Somoza a ocupar cargo de Chefe de Estado no país, tinha poucas chances de sair dessa situação. A reportagem foi publicada na Revista Repórter3 em 1978.
   República Fantasma intitula a reportagem e o sexto capítulo deste livro, instigado por relatos de um diplomata da República Árabe Saarauí Democrática (RASD), o jornalista Fernando Morais embarcou rumo à Bir Lehlu, capital da República Saarauí, para desvendar os mistérios de um povo que proclamou sua república e já mantinha na época relações diplomáticas com 63 nações, com embaixadas e tudo. A história conta a luta da Frente Polisário para ser integrado ao Marrocos e as dificuldades vividas por cada habitante, vivendo em tendas e cercados por um gigantesco muro. A reportagem foi publicada na Revista IstoÉ em maio de 1987.
   O ano de 1992 foi marcante para o escritor Fernando Morais, foi nesta data que ele conseguira uma entrevista com Frei Betto, escritor e religioso, na época um grande mistério para o povo brasileiro. O capítulo sete foi intitulado de Confissões do Frade e traz uma belíssima e detalhada entrevista com o militante da paz. Uma reveladora conversa  que traz ao leitor um sincero e surpreendente diálogo sobre política, jornalismo, sexo, drogas e revelações pouco conhecidas do religioso dominicano sobre os porões da ditadura. Provavelmente a mais interessante história de todo o livro.
   Os próximos dois capítulos, ambos trazendo reportagens com Fernando Collor, são sem dúvida leitura imperdível para quem quer entender um pouco mais sobre o período nebuloso que culminou em um processo de impeachment. O Napoleão do Planalto mostra o ápice do poder de Fernando Collor, suas aparições quase que diárias na mídia, e as pretensões de um louco visionário. A entrevista foi publicada em um editorial da revista Marie Claire em 1992, em formato “um dia na vida de...”.
   No capítulo nove, O Solitário da Dinda, traz todo o ressentimento e ódio no auge da queda do recém deposto Presidente Collor. Fernando Morais possui o dom de retirar de seus entrevistados tudo aquilo que o leitor que saber, suas descrições minuciosas e precisas, denotam um repórter com a teleobjetiva da intuição sempre atenta e um senso de oportunidade apuradíssimo. A reportagem foi publicada na Playboy em julho de 1995.
   Os últimos três capítulos são matérias dignas de estudo em qualquer faculdade de jornalismo. No capítulo 10, a reportagem Entre Kane e os malditos da beat generation, Fernando Morais consegue combinar de forma magistral investigação cultural e o serviço ao leitor. O trabalho surgiu em uma pauta do Jornal da Tarde, em 1996, em que fora determinado escrever uma matéria sobre o Hearst Castle, castelo que o magnata da imprensa William Randolph Hearst mandara construir em San Simeon, na Califórnia. O texto tomou um ar cult, que traz muitas informações prosaicas mas essenciais para o turista, onde ele relata quilômetros rodados, qualidade de hotéis e restaurantes e endereços dos lugares citados na matéria.
   O penúltimo capítulo foi o embrião para o livro biográfico sobre Assis Chateaubriand. Em Encontro marcado com Chatô, Fernando Morais inicia seu trabalho de pesquisa sobre o visionário da comunicação no Brasil e deixa um quero mais, que só terá quem for ler a biografia completa. A reportagem foi publicada em 1999 pelo jornal Folha de S. Paulo e traz relatos dos companheiros de Chatô, Rubem Braga, Moacir Werneck de Castro e Otto Lara Resende.
   Fechando o livro, Fernando Morais revive a experiência de ter entrevistado o jovem juiz espanhol Baltasar Garzón, o “cara” que mandou prender o ex-ditador chileno Augusto Pinochet. Intitulada Ele mandou prender Pinochet, o jornalista usa e abusa de seu poder de persuasão e consegue levantar importantes informações sobre o que estava escondido por trás da prisão. Enfrentou diversos obstáculos, já que o juiz não gostava de jornalistas, era avesso à entrevistas e vivia cercado por muitos seguranças. A matéria foi publicada em 1999 na revista Playboy.
   O livro é leitura obrigatória pra quem deseja tornar-se um grande jornalista investigativo, pois com a mesma versatilidade ousadia e persistência que teve no momento de fazer as pautas, Fernando Morais encanta pela forma como escreve e pela maneira que se preparou para as entrevistas. O resultado: matérias que ocuparam muito espaço nos locais onde foram publicadas mas que garantiram o mesmo que Cem Quilos de Ouro.

Segunda-feira, Julho 11

Mudanças radicais!!

Postando só pra passar o susto... que página nova é essa do blogger???

Segunda-feira, Julho 4

Quer comprar?

Tenho feito tantas coisas que mal tenho tido tempo de postar aqui. Isso é um bom sinal, já que há tempos estava reclamando por não ter nada pra fazer.
De manhã estou na Rádio, cobrindo as férias do Paulinho, à tarde fico em casa criando mil e uma coisas, arte em tecido e lã. De noite fico com meu cotoquinho lindo, que já está quase com 5 anos.

Olha só algumas coisas:








Terça-feira, Junho 28

Selo Prêmio Sunshine Award

Olha que coisa mais querida que eu ganhei da Rosamaria . Achei chique de doer e resolvi seguir distribuindo para blogueiras que eu amo e sigo com muito carinho.
A Rosa é uma lavrense que eu tenho contato praticamente só virtualmente, já que ela mora há muitos anos fora daqui. É de uma família muito conhecida na cidade, e tia avó de alguns queridos amigos meus.





As regras são:

Agradecer a quem nos ofereceu.
 Escrever um post sobre ele.
 Entregar o selo a 12 blogs .
 Mencionar no post os blogs selecionados.
 Avisá-los sobre o recebimento do mesmo.


Ela disse que "o selo Prêmio Sunshine Award destina-se a homenagear, premiar e reconhecer o trabalho de milhares mantenedores de sites e blogs em todo o Brasil,  reconhecendo o esforço de manter um conteúdo de qualidade e sempre atualizado."

A meu ver, uma ótima oportunidade de conhecer e divulgar novos blogs!"

Também acho uma ótima oportunidade.
Difícil tarefa a de escolher entre tantos ótimos blogs, passo, então, para:


Sexta-feira, Junho 24

Receitinhas do Guri

Este mês adquiri dois exemplares da "Coleção Dona Benta para Crianças", uma de Salgadinhos e a outra de Lanchinhos.
Hoje nós resolvemos experimentar duas das receitas, uma de cada livro. Claro que o Samuquinha colocou a mão na massa e tudo foi aprovado e degustado em minutos.
Só que desta vez não vou colocar as receitas, primeiro porque não são minhas e também porque acho legal influenciar a compra desse tipo de produto, até porque acaba estimulando a leitura dos pequeninhos.

Aproveitem as fotos e deliciem-se. :)





Blog novo no ar!

O novo blog será só para colocar minhas receitas de tricô e costura. Espero que gostem.
Ele estará sempre linkado aqui.

http://ateliedadonaaranha.blogspot.com/2011/06/inicio.html

beijinhos

Quinta-feira, Junho 23

A La Pucha Tchê! Não se assustemo.

O dia era verdadeiramente feio, pra gaúcho muito macho ficar com medo, em mim deu, e só de pensar em sair de casa já fiquei apavorada, mas a ida à nova Estância foi totalmente proveitosa. Arrendamos um campo com uma casa linda, muito antiga, na localidade da Nazária em Lavras do Sul. Os móveis estão todos lá, todos preservados, louça, roupeiros, camas, livros, fotografias, enfim... uma verdadeira viagem ao passado.
Enquanto os hackers atacavam o site da Presidência, Senado e Ministérios nós, Dudu, Samuel e eu estávamos aproveitando o dia num lugar lindo e que agora passará a fazer parte das nossas vidas.
Fiz um delicioso arroz de carreteiro, passeamos pela volta da casa, pegamos umas frutas no pomar e depois de cansar de passar frio viemos de volta para a cidade.
Foi tão bom, quer ver?











Quarta-feira, Junho 22

Cabeção...

Hoje tomei um fartão... sabe quando tudo dói no corpo, a cabeça parece estar tão cheia que não paramos pra pensar atenção nem no que acontece nas novelas? Estou assim hoje, zonza de tantos textos e tantos trabalhos que fiz pra faculdade.
Fora isso tenho que terminar duas encomendas de tricô, um cachecol e um colete de pontas. Aliás, os dois estão ficando lindos e tenho certeza que as clientes vão gostar.
Quem está de cabecinha vazia, dá uma comentadinha vai, certamente é o maior presente para um blogueiro.

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